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Dr. Durval Damiani: Diabetes na Infância e na Adolescência

Em entrevista exclusiva ao Portal Diabetes: o Dr. Durval Damiani (SP) fala sobre um tema cada vez mais preocupante dentre os pais de crianças e adolescentes de hoje em dia: o diabetes infantil.

Dr. Durval Damiani: Prof. Livre Docente da Unidade de Endocrinologia Pediátrica do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e Presidente do Departamento Científico de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Data de publicação: 21/05/2010
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Entrevista: Dr. Durval Damiani - CRM: 113.715
Portal Diabetes: Porque está aumentando cada vez mais o número de crianças que estão se tornando portadoras de diabetes tipo 1? E a que o Sr. atribui isso?

Dr. Durval Damiani: O DM tipo 1 apresenta características geográficas interessantes e há países (Finlândia) em que a prevalência chega a ser 50 vezes mais alta que em outros (Japão). Há uma base genética para isso, que passa a conferir às pessoas uma característica imunológica muito especial. O grande marcador de predisposição ao diabetes são os antígenos do sistema HLA (uma espécie de “carteira de identidade imunológica” que temos). Quando você herda um tipo especial de HLA, você pode ter uma predisposição aumentada ao DM1 e, em certos casos, você pode herdar um haplotipo de proteção e terá, como consequência, muito menos probabilidade de desenvolver a doença. O DM1 ocorre em 1 em cada 500 a 2000 crianças (já que é o tipo de diabetes não exclusivo, mas prevalente em crianças e adolescentes) e eu não diria que esteja havendo aumento na incidência, diferentemente do que ocorre com o DM tipo 2 que está, visivelmente, aumentando, especialmente em adolescentes.

Portal Diabetes: Quais os principais sinais e sintomas, que podem ser percebidos pelos pais, e que podem ser indicativos de que seu filho(a) é portador de diabetes?

Dr. Durval Damiani: O DM é um distúrbio metabólico onde a insulina não consegue exercer seus efeitos adequadamente, quer por falta de produção (tipo 1) quer porque ocorre aumento de resistência à sua ação (tipo 2). Como o açúcar (glicose) necessita da ação da insulina para ser jogado para o interior da célula, onde é fonte de combustível para o metabolismo, no DM a glicose fica no sangue (hiperglicemia) e passa a ser eliminado pelos rins (açúcar na urina ou glicosúria). Ora, se a glicose não está podendo ser utilizada como combustível, o organismo começa a mobilizar gordura para produzir energia, o que deixa como resíduo metabólico os corpos cetônicos. Daí, podemos entender o quadro clínico do DM: aumento do volume de urina (os rins estão eliminando o excesso de açúcar e, com isso, carregam água junto), muita sede (para repor a água que está sendo eliminada como urina), perda de peso (o organismo está queimando gordura) e muita fome, numa fase inicial, já que a célula está privada de glicose e “tem fome”. Apesar disso, há perda de peso. Chama muito a atenção dos pais o fato de a criança estar urinando muito e tomando muita água. Muitas crianças começam a urinar na cama, numa época em que já tinham pleno controle esfincteriano. Com o evoluir do quadro, podemos chegar a quadros muito graves como a cetoacidose diabética, que necessita de internação para seu tratamento. Resumindo, criança ou adolescente que comece a beber muita água, urinar muito, perder peso tem diabetes até prova em contrário e os pais devem, imediatamente, procurar um médico.

Portal Diabetes: O tratamento de uma criança portadora de diabetes é diferente do adulto? De que maneira é feito este tratamento?

Dr. Durval Damiani: O tratamento do Diabetes mellitus é, basicamente, o mesmo na criança e no adulto. O que varia é o tipo de diabetes que prevalece em cada faixa etária. Na criança e no adolescente, o tipo mais frequente é o tipo 1, que necessita de insulina para sobreviver. Já o tipo 2, que é a forma mais frequente de DM, prevalece no adulto e inicia seu tratamento com medicamentos por via oral (hipoglicemiantes orais) podendo, em sua evolução, necessitar de insulina para um melhor controle. Dessa forma, enquanto o DM1 precisa de insulina para sobreviver, o DM2 pode necessitar de insulina para melhorar seu controle metabólico. No entanto, pode haver DM1 no adulto e tem havido, cada vez mais, DM2 em crianças e adolescentes.

Portal Diabetes: O Diabetes em crianças pode vir a atrapalhar seu crescimento?

Dr. Durval Damiani: Há uma palavra “mágica” no tratamento do DM que é CONTROLE. Um paciente diabético bem controlado cresce bem e tem uma vida absolutamente saudável. Pratica esportes, vai normalmente à escola, exerce suas atividades profissionais com eficiência, pode namorar, ter filhos, enfim, ser uma pessoa igual a qualquer outra que não seja portadora de DM. No entanto, se o controle não for feito, sérias e graves consequências poderão advir e o crescimento, dentre tantas outras coisas, pode ser comprometido.

Portal Diabetes: Na fase de transição em que a criança passa para a fase da adolescência o tratamento do Diabetes deve ser revisto?

Dr. Durval Damiani: No DM1, a época da puberdade gera a necessidade de doses maiores de insulina para um bom controle. Isto ocorre porque os hormônios da puberdade são antagonistas da insulina, ou seja, eles atrapalham a ação da insulina. Dizemos que os pacientes nessa fase tornam-se mais resistentes à ação da insulina. Um outro aspecto importante são as próprias alterações de vida decorrentes da adolescência, onde o jovem quer ter maior independência, não quer ficar restrito a esquemas convencionais, etc. Isto, para o diabetes, é um complicador já que os tratamentos baseiam-se em algumas normas de horários alimentares, por exemplo. Um adolescente que vá a uma “balada” e resolva não se alimentar no horário convencional e vai jantar às 3 horas da manhã, cria um problema e tanto, pois a insulina que ele tomou pressupõe um horário alimentar definido. Ele pode, portanto ter hipoglicemia porque não jantou no horário adequado e vai ter hiperglicemia porque está se alimentando fora do horário convencional. Um outro aspecto que os adolescentes apresentam é dormir até o meio dia, deixando de fazer seu café da manhã no horário convencional. Isto pode levar a graves hipoglicemias. Todos esses detalhes devem ser muito bem conversados com os pacientes, para que eles entendam os mecanismos que regem o tratamento. Não precisam deixar de fazer o que queiram fazer, mas, como num jogo, devem seguir certas regras...