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Dr. Daniel Benchimol: Gestação e Diabetes

Entrevista gentilmente concedida a Miriam Kunis, gerente de conteúdo do Portal Diabetes.

Dr. Daniel Benchimol é endocrinologista e diabetólogo, diretor do Centro Integrado de Diabetes do Rio de Janeiro - Dia Rio.

Data de publicação: 30/01/2010
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Entrevista: Dr. Daniel Benchimol - CRM: 297.618
Miriam Kunis: Como prevenir problemas durante a gravidez?

Dr. Daniel Benchimol: A forma de prevenir é a gravidez programada, que eu chamei de gravidez responsável. Dois aspectos devem ser considerados: o primeiro refere-se ao estado metabólico da mãe, que é o controle da glicemia; o segundo é a análise do estado orgânico da mãe, isto é, a avaliação das consequências que o diabetes já possa ter causado. Além da avaliação da retina (olhos), do coração, dos rins para se detectar possíveis complicações do diabetes que podem piorar durante a gravidez, devemos também verificar as infecções urinárias que são comuns na mulher com diabetes e que atrapalham muito a gravidez. Nas mulheres com diabetes tipo 2 que tomam medicação via oral, temos de substituir os comprimidos por insulina, porque alguns comprimidos podem causar malformação do feto. Também é importante o acompanhamento por uma equipe multiprofissional, pois trata-se de uma mulher que precisa de uma série de informações e de cuidados especiais.

Miriam Kunis: Quais são as estatísticas de perda do feto em gestantes com diabetes?

Dr. Daniel Benchimol: Quando a taxa média de glicose da mãe está acima de 170, cerca de 24% dos fetos morrem. Quando a glicemia está entre 100 e 170, a média cai para 14% e quando é mantida abaixo de 100 os óbitos intra-uterinos caem para 4%, ficando próximo aos 3% da população sem diabetes. Priscila White, uma das grandes pesquisadoras do diabetes, classificou-o de acordo com o tempo em que a pessoa é portadora, pois esse fator pode determinar o grau de órgãos afetados. Assim, outra recomendação importante é que, quando a mulher já sabe que tem diabetes, ela deve engravidar o mais cedo possível, por ser menor o risco de ter os órgãos atingidos.

Miriam Kunis: O que é o diabetes gestacional?

Dr. Daniel Benchimol: É aquele que ocorre durante a gravidez em mulheres que não tinham diabetes. Passada a gravidez, a mulher poderá retornar ao estado de normalidade da glicemia, o que acontece com a maioria dos casos e isso caracteriza apenas o diabetes gestacional. Porém, há a possibilidade de ela vir a ter diabetes do tipo 1 ou do tipo 2.

Quando a gestante apresenta o diabetes gestacional, é possível dosar os anticorpos contra o pâncreas, contra a insulina e contra uma substância chamada GAD. Se esses anticorpos estiverem presentes, é possível que a gravidez tenha precipitado o surgimento do diabetes tipo 1. Se ela tiver parentes próximos com diabetes, glicemia muito alta na gravidez, for obesa e estiver numa faixa etária mais avançada, provavelmente ela irá ter diabetes do tipo 2 após o parto ou terá grande probabilidade de desenvolvê-lo no futuro.

Miriam Kunis: Quais são as mulheres com maior risco de desenvolver o diabetes gestacional?

Dr. Daniel Benchimol: Os riscos são maiores na mulher que já apresentou diabetes em outras gestações, já apresentou em algum momento uma taxa alta de glicose que depois se normalizou, tem histórico familiar de diabetes, história de aborto espontâneo, morte intra-uterina ou neonatal, bebês que nasceram com mais de 4 quilos e de má-formação congênita. Muitas vezes, o diabetes se estabelece em mulheres que já tiveram muitos filhos, ganharam muito peso, se tornaram hipertensas e que tiveram pré-eclâmpsia. Quanto mais fatores de risco a mulher apresentar, maiores serão as probabilidades de desenvolver diabetes gestacional.

Miriam Kunis: Por que a maioria dos bebês de mães com diabetes nascem grandes e alguns pequenos?

Dr. Daniel Benchimol: O nascimento de bebês grandes é muito comum na mulher com diabetes que não tem muitas complicações, mas cuja glicemia é alta. Sabemos que depois do fator genético determinante, a insulina é o maior fator de crescimento do feto. Se não houver um bom controle da taxa de açúcar da mãe, ela passará mais glicose para o feto e como ele não tem diabetes o seu pâncreas produzirá mais insulina causando um maior crescimento. Por outro lado, se a gestante apresenta problemas circulatórios, cardíacos, na retina ou nos rins, o seu sangue não passará adequadamente para a placenta e os nutrientes não chegam bem ao bebê, isso afetará o seu desenvolvimento e ele permanecerá pequeno.

Miriam Kunis: Por que geralmente os bebês de mães com diabetes nascem com hipoglicemia?

Dr. Daniel Benchimol: Quando a gestante com diabetes passa por várias situações de hiperglicemia (excesso de açúcar no sangue), principalmente no final da gravidez, o pâncreas do bebê produz mais insulina para metabolizar essa quantidade maior de glicose que está recebendo no útero materno. Ao nascer, essa criança fica com hiperinsulinemia (excesso de insulina no sangue) pois deixa de receber glicose da mãe e tem excesso de insulina circulante, consequentemente entra em hipoglicemia (pouco açúcar no sangue) necessitando de cuidados médicos imediatos. A criança não nasce com diabetes mesmo se a mãe for portadora da disfunção.