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Dr. L. Clemente Rolim: Neuropatia Diabética

Entrevista exclusiva ao Portal Diabetes com o Dr. Luiz Clemente Rolim que nos fala sobre um dos temas mais procurados pelos portadores de diabetes de longa duração da doença: A Neuropatia Diabética.

Título de Especialista em Medicina Interna pela AMB
Mestre em Endocrinologia pela UNIFESP-EPM
Responsável pelo Setor de Neuropatias Diabéticas do Centro de Diabetes da UNIFESP-EPM
Data de publicação: 09/10/2009
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Entrevista: Dr. Luiz Clemente Rolim - CRM: 54.415
Portal Diabetes: O que é Neuropatia Diabética?

Dr. L. Clemente Rolim: As neuropatias diabéticas (ND) podem ser definidas como um grupo heterogêneo de disfunções do sistema nervoso periférico, atribuíveis unicamente ao Diabetes mellitus (DM) e que podem afetar virtualmente todas as fibras nervosas do corpo, isto é, neurônios (nervos) sensoriais, autonômicos e motores. Os nervos são estruturas parecidas com fios elétricos que transmitem a sensibilidade e desencadeiam os movimentos do corpo ou controlam funções involuntárias (que independem da vontade como o batimento cardíaco, a digestão, a ereção e a evacuação). As neuropatias diabéticas constituem a complicação mais frequente e perigosa do diabetes, pois é silenciosa e quando dá sintomas pode ser tarde demais, como veremos.

Portal Diabetes: Quais são as causas da Neuropatia Diabética? O diabetes descontrolado pode precipitar o aparecimento da mesma?

Dr. L. Clemente Rolim: O excesso de açúcar no sangue inflama muito os nervos (por isso também chamamos a neuropatia diabética de neurite diabética) provocando dores nos pés e alterações dos batimentos do coração e da pressão do sangue: tonturas ao levantar-se, fraqueza e cansaço ao realizar exercícios. Pressão do sangue ou pressão arterial é a força gerada pela contração do coração para manter adequada e constante a circulação do sangue através dos vasos. Eu costumo dizer que o açúcar em excesso no sangue é tóxico para os nervos da mesma forma que o excesso de álcool, isto é, ambos são neurotóxicos.

Portal Diabetes: A neuropatia diabética divide-se em tipos? Se sim, em quantos e quais são eles?

Dr. L. Clemente Rolim: Em primeiro lugar, dividimos as ND em: SUBCLÍNICAS e CLÍNICAS.

  1. SUBCLÍNICA: não apresenta nenhum sintoma e é a forma mais comum (em torno de 80% dos portadores de neurite). È muito importante ressaltar que este tipo de ND somente pode ser descoberto através de exames clínicos (por exemplo, exame neurológico e testes de neurofisiologia ou de análise da variabilidade da frequência cardíaca – VFC – por eletrocardiografia computadorizada).
  2. CLÍNICA: apresenta alguma manifestação como câimbras ou dores nos pés (apenas 20% dos diabéticos portadores de neurite).
Em segundo lugar, também classificamos as ND conforme a localização anatômica. Assim, há 2 grandes subtipos:

  1. Difusas: quando há um acometimento generalizado ou sistêmico de todos os nervos periféricos: também conhecida como polineuropatia (PNP) clássica que é, de longe, a forma mais comum. Esta neurite sempre começa pelos dedos dos pés e, após alguns anos, acomete também pernas, coxas e finalmente (após 10 anos de evolução) as mãos. Caracteristicamente acomete os dois lados do corpo.
  2. Focais ou Multifocais: quando a lesão está confinada à distribuição de um único ou de vários nervos periféricos isolados. Por exemplo, a chamada síndrome do túnel do carpo que acomete uma das mãos e a pessoa costuma acordar à noite com os dedos das mãos formigando.

Portal Diabetes: Quais seus sintomas? Um paciente pode apresentar neuropatia diabética mesmo sem sentir que a possui?

Dr. L. Clemente Rolim: Somente 20% dos pacientes com neurite diabética têm sintomas que podem variar desde um simples formigamento nos dedos dos pés até dores insuportáveis nas pernas que impedem o paciente de dormir a noite toda. Este tipo de dor nós chamamos de dor neuropática e é realmente uma das coisas mais difíceis de tratar em toda a medicina. Felizmente, as pesquisas médicas caminham muito rapidamente neste campo e há grande esperança de novos medicamentos para os próximos anos.

Portal Diabetes: A neuropatia diabética pode afetar todo o corpo? Uma mesma pessoa pode apresentar mais de um tipo de neuropatia?

Dr. L. Clemente Rolim: Hoje sabemos que a neurite diabética é também um fator de risco para doenças do coração e colabora muito com a redução da qualidade de vida. Na primeira pergunta desta entrevista, eu me referi ao termo fibras nervosas autonômicas. Pois bem, a neurite diabética se inicia justamente por estas fibras (nervos) que, além de estarem espalhadas por todo o corpo, são as responsáveis por processos vitais e automáticos do nosso organismo. Por exemplo, a função sexual, a produção do suor, a eliminação da urina pela bexiga, a deglutição, a respiração e o próprio coração (pulso ou batimento cardíaco e pressão arterial). Em nossos serviços temos visto muitos casos de pacientes diabéticos com mais de um subtipo de ND. Por exemplo, frequentemente encontramos pacientes com uma mononeurite compressiva (túnel do carpo) junto com a neurite clássica (polineuropatia difusa).